Tese Jurídica Oficial
- A decisão de enviar o réu para julgamento no Tribunal do Júri (pronúncia) não pode se fundamentar apenas em elementos colhidos na fase de investigação policial. A única exceção a essa regra são as provas que não podem ser reproduzidas perante o juiz, como perícias, interceptações telefônicas ou depoimentos colhidos antecipadamente por risco de morte.
- O depoimento de "ouvir dizer" (testemunho indireto) é válido e permitido pela lei brasileira. Contudo, mesmo que essa testemunha fale diretamente ao juiz durante o processo, esse tipo de relato, isoladamente, não tem a força probatória mínima exigida para submeter o acusado a um julgamento popular.
- Existe uma exceção a essa fragilidade do testemunho indireto: em casos envolvendo facções criminosas, crime organizado ou situações claras de intimidação, onde a "lei do silêncio" impede que as vítimas e testemunhas diretas falem. Nesses cenários, onde é comprovadamente difícil ou impossível obter a prova direta, o relato de "ouvir dizer" ganha maior peso, desde que o juiz faça um controle rigoroso dessa prova e garanta ao acusado o pleno direito de questioná-la e se defender.
Resumo Oficial
1. A pronúncia não pode se basear, exclusivamente, em elementos informativos do inquérito, ressalvadas as exceções contidas na parte final do 155, caput, do CPP (provas cautelares, não repetíveis e antecipadas).
2. O testemunho indireto ou de ouvir dizer é prova lícita e admissível no ordenamento jurídico brasileiro, mas, mesmo se produzido em juízo, não é suficiente, por si só, para atingir o standard probatório exigido para a decisão de pronúncia.
3. Em contextos de intimidação da prova, criminalidade organizada, facções criminosas, silenciamento imposto à vítima ou à testemunha e outras hipóteses objetivamente demonstradas de irrepetibilidade ou dificuldade substancial de produção da prova direta, o testemunho indireto qualificado poderá assumir maior relevo probatório, desde que submetido a controle judicial estrito e não dissociado das garantias do contraditório e da ampla defesa.
A questão submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos consiste em definir: a) se, nos termos do art. 155 do CPP, a pronúncia não pode se fundamentar exclusivamente em elementos colhidos durante o inquérito policial; e b) se o testemunho indireto, ainda que colhido em juízo, não constitui, isoladamente, meio de prova idôneo para a pronúncia.
A decisão de pronúncia deve ser embasada em indícios sólidos e consistentes, respeitando os direitos e garantias fundamentais do acusado, especialmente o princípio da presunção de inocência, que permanece aplicável durante todas as fases do processo penal. A ausência de provas consistentes produzidas sob o contraditório invalida qualquer decisão desfavorável ao réu, seja para o condenar ou, nos crimes dolosos contra a vida, para o pronunciar e o submeter a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Portanto, conjecturas sobre o envolvimento do acusado no crime não são suficientes para justificar a pronúncia. É imprescindível que as provas apresentadas ofereçam suporte sólido e convincente para a hipótese acusatória, garantindo, assim, que a decisão de submeter o réu ao julgamento pelo Tribunal do Júri seja fundamentada em elementos concretos, respeitando os princípios da legalidade, da ampla defesa e do contraditório, essenciais para a preservação da justiça e da imparcialidade no processo penal.
Dessa forma, não se pode admitir que o réu seja pronunciado com fundamento exclusivamente em elementos informativos colhidos na fase inquisitorial, sem qualquer lastro probatório colhido na fase do judicium accusationis do Tribunal do Júri. Com efeito, entender de modo diverso implica conferir maior juridicidade a atos investigativos de cunho administrativo e desprovidos das garantias do devido processo legal, em detrimento do processo penal, no qual vigoram princípios democráticos e garantias fundamentais.
Ainda sobre as provas válidas para a pronúncia do réu, é importante destacar que, em que pese a ausência, no ordenamento jurídico pátrio, de impedimento legal ao testemunho indireto (de "ouvir dizer" ou hearsay rule), o grau de confiabilidade desse tipo de depoimento, sem a indicação da fonte direta da informação trazida pela testemunha e não corroborado minimamente por outros elementos, não é o mesmo daquele prestado pela testemunha que depõe pelo que sabe per proprium sensum et non per sensum alterius, na medida em que os relatos podem se alterar quando passam de boca a boca, impedindo que o acusado refute, com eficácia, as imputações.
Por fim, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça excepcionaliza a possibilidade do testemunho indireto no caso das provas não repetíveis ou quando se verifica um temor concreto de represálias pelo comparecimento em juízo.
Ante o exposto, fixam-se as seguintes teses para o Tema 1260/STJ:
1. A pronúncia não pode se basear, exclusivamente, em elementos informativos do inquérito, ressalvadas as exceções contidas na parte final do 155, caput, do CPP (provas cautelares, não repetíveis e antecipadas).
2. O testemunho indireto ou de ouvir dizer é prova lícita e admissível no ordenamento jurídico brasileiro, mas, mesmo se produzido em juízo, não é suficiente, por si só, para atingir o standard probatório exigido para a decisão de pronúncia.
3. Em contextos de intimidação da prova, criminalidade organizada, facções criminosas, silenciamento imposto à vítima ou à testemunha e outras hipóteses objetivamente demonstradas de irrepetibilidade ou dificuldade substancial de produção da prova direta, o testemunho indireto qualificado poderá assumir maior relevo probatório, desde que submetido a controle judicial estrito e não dissociado das garantias do contraditório e da ampla defesa.
Comentários
Explicação da Decisão
No procedimento do Tribunal do Júri, a pronúncia exige suporte probatório produzido sob contraditório, não podendo ser baseada exclusivamente em elementos informativos do inquérito. A exceção fica por conta das provas cautelares, não repetíveis e antecipadas, previstas na parte final do art. 155 do CPP.
O STJ também esclareceu que o testemunho de “ouvir dizer” (hearsay) não é uma prova ilícita. O problema está em sua força probatória: mesmo quando prestado em juízo, o relato indireto, isoladamente e sem outros elementos de corroboração, não alcança o standard necessário para levar o acusado a julgamento pelo Júri.
Há, contudo, situações excepcionais em que a prova direta é concretamente dificultada ou inviabilizada, como em contextos de organizações criminosas, facções e intimidação de testemunhas. Nesses casos, o testemunho indireto qualificado pode receber maior peso, desde que o juiz faça controle rigoroso da sua confiabilidade e preserve as garantias de defesa.
Aplicação da Decisão em um Caso Concreto
Imagine que nenhuma testemunha tenha presenciado o homicídio, mas uma pessoa ouvida em juízo diga que soube, por outra testemunha, que o acusado praticou o crime. Se esse relato…
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